Toca a campainha.
. Vou até a porta, receoso. Não esperava por uma coisa dessas... acho que é a primeira vez que ouço a campainha tocar, desde que me mudei para este apartamento. O tempo todo ouço coisas do lado de fora de seu corredor, como portas batendo, ferros batendo, marteladas, latidos, vozes que me chamam para fora. Mas nunca atendo ao chamado, jamais abro a porta. Uma de minhas missões é cuidar de Hannah.
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Contudo não posso evitar xeretar o corredor pelo olho mágico. E nada – a não ser, em grande angular, o corredor amarelo, duas portas, uma delas com uma cruz, do lado direito; do lado esquerdo, dois extintores de incêndio vermelhos.
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– Estranho, Hannah... não era ninguém. Talvez fosse um desses garotos que tocam a campainha e saem correndo. Bom, vamos lá, deixa eu continuar a leitura.
– Põe um som.
– Scarlatti?
– Hum-hum. Você sabe mesmo agradar uma mulher, Fabrizio...
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– O cérebro dos coelhos é menor – disse Jason.
– Deve ser – disse Ruth. – Seja como for, ele adorava os gatos e tentava fazer tudo o que eles faziam. Até aprendeu a usar a caixa de areia deles. Arrancou tufos de pêlo do peito e fez com eles um ninho atrás do sofá; queria que os gatinhos ficassem lá. Mas eles nunca iam. O fim dele, ou quase, chegou no dia em que ele tentou brincar de esconde-esconde com um pastor alemão que era de uma senhora que veio fazer uma visita. Sabe, o coelho tinha aprendido uma brincadeira com os gatos: ele se escondia atrás do sofá e aí saía de lá correndo, correndo em círculos muito depressa, e todo mundo tentava pegá-lo, mas em geral não conseguiam, e aí ele voltava a se esconder atrás do sofá, onde estava entendendo que ninguém devia segui-lo. Mas o cachorro não conhecia as regras do jogo e quando o coelho se escondeu atrás do sofá, foi atrás dele e lhe deu uma tremenda dentada no rabo.
. A campainha toca outra vez. Vou ver. Em grande angular, o corredor amarelo, duas portas, uma delas com uma cruz, do lado direito; do lado esquerdo, dois extintores de incêndio vermelhos.
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– Quem será, agora?
– E eu sei? Eu só leio o futuro às cinco da tarde. Ainda são quatro e cinco.
– Mas ninguém jamais vem nos visitar. E a Divisão nunca disse o que fazer se alguém viesse.
– Espia no olho mágico, gênio.
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Um sujeito metido numa túnica branca, barba amarelada, olhos tensos, ninando um gato no colo, mostra os dentes.
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– Nunca vi mais gordo.
– Pega o seu laser, valentão.
– É mesmo...
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Hannah sempre sabe me desarmar.
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Mentalizo o revólver enquanto olho para minha Psico 5. Em segundos, um bastão metálico se materializa sobre minha mesa de deliverância. Uma legítima Parabellum .11. Emite um feixe de laser que cortaria até um turbocóptero ao meio. Pode alcançar uma envergadura de dois metros e pesa menos que uma folha de papel. Encaixo na mão direita. Um simples toque e o barbudo vai buscar a cabeça dele no meu capacho.
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Meus superiores na Divisão me haviam alertado da possibilidade de outro Agente vir me procurar. Não pensei que viessem logo, porém. Faz quase um ano que estou aqui e nunca saí, nunca ninguém veio, ninguém se comunicou. Me vem um arrepio quando passo o cartão na maçaneta e abro a porta e me dou conta: passei um ano sem ouvir uma voz humana.
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– Quem é você?
– Quem eu sou? Eu é que pergunto: quem, ou o quê, você é? Aliás, nem é isso o que eu quero saber. O que eu quero saber é onde descolo umas anfetas nessa cidade.
– Umas o quê?
– Umas anfetaminas, dammit. É impossível viver nesse mundo aquático sem isso. Essa cidade é úmida, pegajosa, varia de um frio glacial pra um forno crematório, ipês-roxos floridos pra cactos cadavéricos... Hummm... o que é isso que você tem aí na mão, velhão? Uma parabelo? É legítima? Adoro armas antigas... sabe, tinha um Colt 44 feito em 1860, durante a Guerra da Secessão, mas vendi pra pagar umas dívidas com meu dealer... Watch out!
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E jogou o gato em cima de mim. Assustado, segurei o bichano pelos sovacos. Quando percebi, o barbudo apontava uma arma velha pro meu peito.
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–... mas depois consegui reaver. – Tranqüilo, ele me mostra, todo orgulhoso, balançante, o pesado revólver. O gato se arrepia todo no meu colo. Em algum lugar da minha mente, pressinto Hannah rindo da minha cara, a maldita. Rangendo os dentes, o barbudo recoloca a arma por baixo da túnica. – Eu achava que os Agentes da Cidade-Olho fossem mais espertos. Mas você parece estar mais enferrujado que esse Colt. Não vai me convidar para entrar?
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– Ei, chefe, me tira daqui! Esse cara está se tremendo todo... vai que ele me derruba naquele aquário! Aquele peixe é grande demais para eu comer... – fala o... o gato. Ah, não. Um tubarão que conversa comigo por telepatia eu até engulo, mas um gato falante? Confuso, decido fechar a porta atrás do barbudo.
– Entre...
– Me deixe fazer as apresentações. – Pega de volta o gato. – Este aqui é o Fred Astaire. Nosso colega Mark teve de viajar e me pediu pra que eu cuidasse do bichano.
– Mark Sandman? Viajou? Pra onde? – balbucio, descontrolado. – Mas e você, quem é?
– Sou o Agente Elias – sorri. Tem um olhar profundo, parece flutuar por trás de mim. – Mas pode me chamar de Profeta: é meu nome de guerra na Divisão.
– Se é um profeta, então realmente somos colegas... – brinco. Ele tem um aperto de mão muito forte. Mas a mão treme como a de um viciado em speed. Ele range uma mandíbula sobre a outra.
– Um café?
– Claro.
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Vou à cozinha. Volto-me, hesitante.
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– Olha, me desculpe o mau jeito. É que faz tempo que não recebo visitas... – Pressinto a irritação de Hannah, por sacar que estamos fora do alcance de sua visão. E então me vem uma onda de alegria, de loquacidade. – Mas olha: eu me recuso a fazer café no estilo yankee, aquela água de batata que vocês bebem. Já que está na minha casa, vai tomar um café de paulista. Escuta, Elias, por falar nisso – enquanto ligava a cafeteira, tentava recobrar o domínio da situação: afinal, estava em minha casa –, que história é essa de anfetaminas? A Divisão deixa que os Agentes usem drogas dessa maneira? Desculpe tocar no assunto, mas você parece um pouco afetado...
– O mau uso das drogas não é uma doença, meu amigo – sorri benevolente o Profeta, puxando uma cadeira enquanto joga suavemente Fred Astaire ao chão. Puxa de dentro da túnica, que deveria ter milhares de bolsos ocultos, um cigarrinho e um fósforo. – É uma decisão. É como a decisão de parar na frente de um carro em movimento. Você não chamaria isso de doença; mas sim, um erro de julgamento.
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Por trás da névoa dourada que escapa da boca do Agente Elias, noto que o café ficou pronto. Súbito, percebo estar vestindo um pijama. O que me dá uma noção de irrealidade.
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– Mas para o que você usa isso? É vício? É para fugir da realidade? Nossa realidade, trabalhando para a Divisão, já não parece escapista o suficiente?
– Realidade, Fabrizio – ele leva a xícara aos lábios, mas, antes de beber, aspira densamente o aroma do café. Fecha os olhos –, humm – e sorve a bebida devagar, de uma só vez. Deposita a xícara de café na mesa e estende a mão sobre a minha. Sorri de novo aquele sorriso bondoso, mas que ao mesmo tempo parece saber algo terrível sobre mim, que eu mesmo não o sei. – Thank you very much. Não tomo um café bom assim desde que minha segunda mulher faleceu. – Faz uma pausa. – O que você dizia mesmo?
– Eu não dizia nada. Você é quem estava falando sobre realidade...
– Ah, sim, a realidade. Realidade, eu acho, é aquilo que, quando você pára de acreditar, continua existindo, mesmo assim. Ela se recusa a ir embora, quer você acredite, quer não. – Fred Astaire, que estava passeando pela cozinha, irrompe no colo do Profeta. – A ferramenta básica para a manipulação da realidade é a manipulação das palavras. Se você controla o sentido das palavras, controla as pessoas – que precisam usar as palavras. Você diz que eu estou afetado. Mas quando cheguei em sua casa, pensei que tinha errado de endereço e fiquei zanzando pelo corredor. Pude reparar que você tem o costume de falar sozinho. Se eu fosse uma pessoa preconceituosa, diria que ficou tanto tempo trancado aqui que já está ficando maluco.
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Sorri.
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– Pode parecer loucura, mesmo. Mas eu estava falando com a Hannah...
– Quem?
– O tubarão. É uma agente transmorfo, uma das maravilhas da Divisão, não sabia? Nós trabalhamos em conjunto para fazer as predições. Hannah fala comigo por telepatia. Juntos, somos o Oráculo.
– O único oráculo em que acredito é o I-Ching – Virou sua xícara de uma vez. – Sabe, antigamente a maioria dos meus conterrâneos tinham basicamente duas crenças: uma era que Deus estava morto e a outra é que realmente existiam diferenças entre as marcas de cigarros. Felizmente os norte-americanos já não estão mais no centro do Império. Ainda bem que vocês não têm esse tipo de preconceitos aqui no Brasil...
– Temos outros...
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Ele range os dentes.
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– Tem mais café? – Levanto-me para pegar o bule enquanto reconheço o aroma da fumaça. Skunk. Poxa, os Agentes andam pegando pesado. Elias pisca o olho, enquanto o sirvo: – Não, Fabrizio, olha, eu estava brincando. Conheço o trabalho de vocês... o Mark falou muito da dupla. Por isso vim aqui... – Adotou um tom de confidência. – Sabe, um de nossos Agentes sumiu, não sei se ficou sabendo. É ainda sigiloso...
– Quem?
– Zed Stein... Desapareceu completamente.
– Morto?
– Creio que não. Encontramos pistas recentes dele em alguns lugares... Londres, Istambul, Asunción, Hong Kong. O problema é que ele estava envolvido em uma investigação supersecreta – nem eu sei o que é –, e Mark está furioso com o sumiço dele. Aí, me colocou na caça. É aí que vocês entram. Preciso de uma predição em Zed para... para um dia, mais ou menos. Consegue? Hei, quero mais um café.
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Levanto-me para fazer mais, enquanto Elias solta outras baforadas.
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– Não tomo um café bom assim desde que... desde que a minha segunda ou terceira mulher se juntou aos Panteras Negras, acho. Aquela vadia. – Puxou forte a fumaça; Fred Astaire elevou sua patinha para o ar, na esperança de apanhar um dos círculos do fumo amarelado. – Mas, sabe, até que ela me fez um bem. Naquela época, eu era um burguês, como você, tinha minha casa, meu cachorro, meu Buick novo. A mulher me deu um pé na bunda tão forte que acabei indo morar na rua!... Isso foi ótimo: comecei a perceber que não existe isso de uma pessoa ser um vendedor, um cineasta, um encanador... somos todos, essencialmente, patifes. Você é um patife, Fabrizio? – Soprou a fumaça. – Mas por que estou falando disso? Desculpe, divago. Essa California Indica é mesmo muito boa. Comprei ali na Praça da República, acredita? Não quer mesmo um pega?
– Desculpe, Elias, mas não posso. Você sabe, meu trabalho está diretamente conectado com a Mnemomáquina – qualquer transtorno em minha memória pode desvirtuar minhas predições. Além disso, lembro-me vagamente de que fumei maconha quando era jovem, tinha uns 20 anos, e me deu uma aterrorizante vontade de morrer... quase tentei me matar. Estava no topo de um prédio, em uma festa, e fiquei sinceramente tentado a me jogar lá embaixo. Me deu paranóia, creio.
– Paranóia? Que engraçado. Sabe, colega, eu já tentei me matar, uma vez. Era garoto e sonhei que um cavalo tentava pular por sobre a minha casa; mas não conseguia, caía no chão e morria. Então, escrevi uma carta para minha mãe, dizendo que aquele cavalo simbolizava a minha vida, que não conseguia sair do chão. Quando vi, estava tomando várias pílulas de soníferos dela... aí, chamei ajuda pelo telefone. Isso me levou a crer que os suicidas na verdade não realizam o que estão fazendo quando fazem a besteira. Acho que nem Hemingway nem Kurt Cobain nem Hunter Thompson realmente não tinham a ciência de que iam dar um tiro na própria boca. Ao contrário do Burroughs, que praticou isso a vida inteira, aquele velho boqueteador. É mais ou menos como a morte da Gertrude Stein. Ela tinha operado um câncer, e ninguém sabia, antes da cirurgia, se o câncer realmente era removível. Então ela acordou, logo após a cirurgia, e perguntou para os médicos: Qual é a resposta? Ninguém disse uma palavra. Aí ela soltou: Qual é a pergunta? E morreu imediatamente. Acho que é isso: se ela não tivesse perguntado, não teria morrido, assim como Hemingway. Como num sonho, você imagina que sua vida acabou. Mas sempre tem um último segundo em que pode pedir ajuda, mover o rifle para o outro lado, ou simplesmente calar a boca. Foi o que fiz, e é por isso que ainda estou aqui.
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Não sei o que dizer. Fico só observando a barba falha de Elias, da mesma cor dos círculos de skunk, e tentando juntar as peças. Ele me espia com seus olhos fundos e oblíquos, solta uma risadinha e se levanta.
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– Bom, Fabro my darling, vou andando. Não se esqueça da predição sobre Zed Stein. Precisamos encontrar esse doidão antes que faça merda ou acabe soltando alguma informação... e aí, você sabe, teremos uma DR...
– O que é isso? Discussão de relacionamento? Isso eu já tenho bastante com o meu tubarão...
– Não, amador! – Ele riu. – Uma Delenda Ratio. Desligar seus circuitos racionais. Em suma, fechar seu corpo físico, sintetizá-lo em uma sopa de silício e torná-lo uma mera memória líquida para ser acessada por um HD da Divisão, ou como um morto-vivo para ser vampirizado e sorvido em colheiradas pela Psico5 de outro Agente... Algo muito triste. Mas você vai me ajudar a não precisar fazer isso com o velho Zed. Se você quiser me encontrar, é só mandar um recado através da sua Psico5. Vou ficar aqui na Cidade-Olho mais um tempo. Preciso dar um jeito nessa horrível dor de cabeça. Ouvi dizer que tem um traficante de anfetaminas, um tal de Doutor Apocalipse, que se finge de dentista, ou de proctologista. Me passe o reporte assim que puder, ok? Muito obrigado pelo café.
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Elias vai até o aquário e faz uma elegante mesura para Hannah. Ela dá um pique de lado a outro do tanque. Deve ter ficado com tesão, safada. O gato sobe no ombro do Profeta, que se despede com uma saudação budista.
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– Namaste.
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Fecho a porta e me volto para minha colega de trabalho. Nossa, já são quase cinco horas.
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– Vamos lá, Hannah... o Momento...
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Sento-me à minha cadeira e fixo o olhar no olhar do tubarão. O sol cai ao meu nordeste e invade meu largo apartamento de reflexos amarelos, alaranjados, lilales – e meus olhos tunem no Rubi.
Porém, o que vejo nas malhas translúcidas do corpo do grande peixe, em esgares e estrias entre negro e dourado, é um sujeito que lembra o ator Rutger Hauer, a me encarar, em grande angular. Não faz sentido. Alguma projeção da Psico5?
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O Momento se foi. O Rubi se esgarçou até se tornar a fuligem que banha as águas do tanque de Hannah.
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E então, como diziam antigamente, caiu a ficha.
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O Agente Elias é o autor das linhas que eu lia para Hannah.
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Philip K Dick.
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A voz do tubarão surge em minha mente.
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– Só agora percebeu isso, gênio? Está tão interessado em alta literatura que nem se dá ao trabalho de ver o retrato dos autores na orelha dos livros... eu percebi que era ele assim que entrou.
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Toca a campainha. Algo foi revelado, porém não compreendo.
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Vou até a porta, receoso.
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Ainda meio parvo, apóio minha testa na porta. Então quer dizer que K Dick está lá embaixo, em algum carro-barco, doidão de skunk, rindo de mim... ando mesmo enferrujado, como ele disse.
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Mas, no olho mágico, em grande angular, somente o corredor amarelo, duas portas, uma delas com uma cruz, do lado direito; do lado esquerdo, dois extintores de incêndio vermelhos.
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Giro as chaves na fechadura e abro a porta com raiva. No chão, no capacho, a sombra negra de um gato.
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Fred Astaire.
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– Está chovendo muito lá fora. O Elias disse que eu posso dar um tempo por aqui...
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Fecho a porta, ainda sem acreditar. O bicho passa entre minhas pernas e se posta na sala, olhando admirado para Hannah. Algo me diz que minha vida com esses dois bichos falantes vai ficar meio complicada.
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– Fique tranqüilo, Fred... a Hannah só come carne humana...